Cine & Mercado

Saiba como foi o primeiro dia do Amazon Film Festival em Londres

Aconteceu nesta quinta-feira(10), a estreia do Amazon Film Fest, no RichMix Shoreditch, na vibe de muitos eventos com temáticas brasileiras, que dominaram Londres nos últimos meses em decorrência da exposição do Brasil pela Copa do Mundo 2014.

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O panaroma do evento é voltado a apresentar filmes da região da Amazônia, o Amazon Film Fest foi o segundo evento de cinema brasileiro esse ano a ser ambientado na Inglaterra. Lembrando que o Infinitto - Brazilian Film Festival of London aconteceu em maio desse ano e também teve cobertura desta coluna. 

Livre iniciativa
A iniciativa de produção desse festival surgiu da parceria entre Renata Peppl e Vanessa Gabriel-Robinson e não contou com nenhuma ajuda institucional brasileira. O cinema RichMix tinha a disponibilidade do espaço e as produtoras arrecadaram uma quantidade de fundos via o Indiegogo, website que disponibiliza a possibilidade do crowdfunding.

Com essa essa garra nasce a iniciativa de um recorte da cinematografia brasileira, voltada para uma região que tenta um lugar ao sol diante de sua humilde produção se comparada ao resto do Brasil.

Mostra de cinema
A seleção dos longas metragens exibidos nesta quinta, contou com dois documentário imperdíveis e esclarecedores da historia daquela região. 'Brega S/A', de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho mostra a cena produtiva e fenômeno do neo brega do Pará, suas tantas vertentes e a industria 'pirata' que mantém viva e pulsante essa cultura musical que já influencia o resto do Brasil.

E na seqüência 'As Filhas de Chiquita' de Priscilla Brasil, que documenta o conflito entre o sagrado e o profano no Círio de Nazaré - tradicional festa religiosa em Belém do Pará. Filme que antes de virar um média nasceu como um curta metragem e fez parte de uma seleção de sete curtas que tinham por tema os sete pecados capitais nas capitais, onde o filme de Priscilla representou a "Soberba".

Como alguns sabem, também sou produtor audiovisual, e meu primeiro curta documentário como diretor também foi selecionado para fazer parte deste projeto de curtas, porém o tema que abordei foi a "Luxúria" e o assunto o turismo sexual, em Salvador. Quem quiser conferir pode assistir aqui.  

Voltando para o Amazon Festival, ambos filmes do primeiro dia da mostra contaram com a assinatura de Priscilla Brasil, Brega S/A, como produtora executiva, e 'As Filhas da Chiquita' como diretora. Cineasta paraense, que exerce enorme influência na região, Priscilla é também responsável pelos projetos visuais da cantora Gaby Amarantos, além de sua sócia numa produtora de cinema e empresária.

O Festival segue com programação nessa sexta-feira, com mais três longas documentários e dois curtas, um de animação, tendo como temática as mazelas dos povos indígenas, a questão política e os conflitos sociais pelas disputas de terras, no Norte do Brasil. O evento encerra neste sábado.

Confira a programação completa aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinema baiano faz bonito em Festival britânico; leia resenha e bate papo com Bernard Attal


Fachada do cine Odeon Covent Garden - Londres, onde rolaram todas as exibições

Como você pode já ter percebido, ao longo deste mês, nossa coluna realizou uma cobertura especial no VI Brazilian Film Festival of London (BRFFL), que aconteceu na capital britânica, de 09 a 13 de maio. Marcamos presença em todas as sessões e, aos poucos, estamos resenhando aqui o que de mais importante rolou na festa do cinema brasileiro em Londres. 

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Hoje vamos relembrar a significativa participação do audiovisual baiano, dentro da programação de filmes, por meio da exibição do longa-metragem 'A Coleção Invisível' e do elogiado curta 'Jessy'. Confira ainda uma entrevista rápida com o diretor Bernard Attal ('A Coleção Invisível').

No penúltimo dia do Festival de Cinema Brasileiro, segunda-feira (12), foi exibido o longa 'A Coleção Invisível' de Bernand Attal, precedido pelo ótimo 'Sylvia' de Arthur Ianckievicz, do Paraná - sobre o qual falaremos melhor em outro momento.


Diretor Bernard Attal e o ator protagonista Vladimir Brichta

A COLEÇÃO INVISÍVEL
Francês radicado na Bahia há quase 10 anos, Bernard Attal traz por cenário em seu primeiro longa a região cacaueira do Sul do estado. E concebe assim, que a Bahia contemporânea deixe de ser lembrada apenas por imagens de Salvador, a capital. E de certa maneira, nos leva de volta, e atualiza o imaginário daquela região, que nos foi fortemente oferecida na literatura de Jorge Amado, em livros como 'São Jorge dos Ilhéus' ou o clássico 'Gabriela'.

Entretanto, não foi em Jorge Amado que Attal se inspirou para adaptar um conto e deflagrar a depressão da região cacaueira, mas sim, no conto homônimo de Stefan Zweig, novelista extremamente popular e um dos maiores do mundo entre 1920 -1930.

“A cultura baiana inspira meu trabalho”. Bernard Attal, cineasta

'A Coleção Invisível' tem por fio condutor a busca da personagem do ator soteropolitano Vladimir Brichta em superar o trauma de uma tragédia, e é a conseqüente dor desse trauma que rege a emoção do filme, nos guiando na jornada em busca da tal coleção invisível. Último filme do ator Walmor Chagas, impecável, figuram também Paulo César Pereio, divertido, e Fernando Guerreiro.

No filme, fica demarcada a afinidade do diretor francês com a Bahia, denunciada na rica fotografia, na direção dos atores e na maneira singular de apresentar essa terra, tão visualmente explorada, mas que ele tira do clichê pra reapresentá-la.

NOVO CINEMA BAIANO

Na eminência da chegada de novas produções baianas na telona, que têm por característica essa releitura da Bahia - lançamentos como 'Antes da Chuva' de Claudio Marques e Marilia Hugues, além da aguardada estréia em longa metragem de Daniel Lisboa com 'Tropikaos' - aproveitei a oportunidade e perguntei ao diretor Bernand Attal:

Tiago Di Mauro - Você está há 10 anos na Bahia e se diz até baiano. Seu filme se passa na região litorânea cacaueira do Sul da Bahia, tem protagonista baiano e diante de tantos elementos desse estado e dessa forte cultura, que tem um cinema muito característico e especifico, eu te pergunto: você faz cinema baiano?

Bernard Attal - Eu creio que eu faço um cinema baiano no sentido que a cultura baiana inspira meu trabalho. 'A Coleção Invisivel' resulta de um trabalho longo e intenso de pesquisa para adequar o conto de Stefan Zweig ao contexto baiano. Agora, se a definição do cinema baiano for uma maneira exuberante de se expressar, não é bem meu estilo. Mas também eu não acredito muito nessa definição.

Os filmes de Roberto Pires têm pouco a ver com as obras de Glauber. Filmes recentes como 'Cuíca de Santo Amaro', de Josias Pires e Joel de Almeida, ou 'Depois da Chuva', de Claudio Marques e Marilia Hugues, também apresentam um olhar pessoal e diferente sobre a Bahia. Não se fala de um cinema carioca ou paulista. Então, porque confinar o cinema baiano dentro de um estilo único?

Nada testemunha melhor da diversidade da cinematografia da Bahia do que a produção recente de curta-metragens. Os maravilhosos 'Jessy' e 'O Menino do Cinco', muito diferentes um do outro, são ambas produções baianas.

TDiM - Quais filmes e quais profissionais desse cinema te inspiram?

Attal - Minha grande inspiração é o cinema de Jean Renoir que sabia misturar como ninguém o drama e a comédia, falar de coisas importantes com uma mão leve. As obras de Eduardo Coutinho e de Leon Hirzman são também uma referência importante para mim. Não me canso de assistir 'As Canções de Coutinho'.

De uma forma geral, eu tiro um prazer enorme de assistir documentários brasileiros. Por esse motivo mesmo, eu acho que a grande obra do cinema brasileiro de ficção é 'Iracema', de Jorge Bodansky e Orlando Senna, que soube render perfeitamente essa fronteira extremamente sutil que existe no Brasil entre a ficção e a realidade, entre a verdade e a mentira. 

'Nada testemunha melhor da diversidade da cinematografia da Bahia do que a produção recente de curta-metragens.' Bernard, sobre 'Menino do Cinco' e 'Jessy'


Os diretores Rodrigo Luna, Paula Lice (que protagoniza o filme) e Ronei Jorge

VIRANDO DRAG QUEEN 
Elogiado por Attal, 'Jessy', dos baianos Paula Lice, Ronei Jorge e Rodrigo Luna, também fez bonito, logo após a exibição de 'A Coleção Invisível', no penúltimo dia do BRFFL. Aliás, tirou gargalhadas da audiência e teve a sorte de uma sala cheia, em decorrência da vantagem do horário de exibição, às 20h. 

Ao contar a história da transformação de uma mulher, a atriz e diretora Paula Lice, na Drag Queen 'Jessy', o filme surpreende por não ser clichê. Como falar da temática Drag Queen, de uma Salvador com humor e mostrar equipe de filmagem em cena, sem entrar em ambiente comum? Um emaranhado de situações já tão mastigadas em tantos outros filmes, mas que tomam um novo fôlego na força da montagem do curta, na escolha de que cena mostrar, ou não, inclusive, por não exibir a cena que pode se dizer a mais esperada.

"'Jessy' anuncia uma vontade do cinema baiano de sair do armário"

Uma ideia simples, por vezes ambígua, tem cara de documentário, mas pode ser ficção, que entretém a audiência pelo bom humor e pelo bom gosto criativo. A produção anuncia uma vontade do cinema baiano de sair do armário, ainda que discreto, mas na crista da onda da temática homossexual no audiovisual brasileiro, com produções recentes como 'Tatuagem', de Hilton Lacerda e o polêmico 'Praia do Futuro' de Karim Ainuz - que mostra Wagner Moura (outro baiano diga-se de passagem) em cenas quentes de sexo gay. 

'Jessy' animou a audiência e foi bastante aplaudido. Comunicou-se bem com a plateia internacional e aponta para novos ares de uma geração de cineastas que a Bahia vem apresentando, numa cadeia de curtas metragens bem sucedidos e que tem rodado bastante o Brasil, em festivais. Pelo mundo, os curtas vêm chegando aos poucos, recentemente teve a estreia de ESC4ESCAPE (do qual participei), de Alexandre Guena, no BOYOB Moving Image 2013.

A grande expectativa fica em ver essa geração produzindo longas-metragens, na expansão do discurso audiovisual brasileiro, para uma audiência cada vez maior e num momento em que o Brasil é alvo de tantos interesses internacionais. Que nos assistam, então!


*Colaborou O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. .

Cinema nacional: conheça a animação "Paleolito" e a comédia "Primeiro Dia de Um Ano Qualquer"

Pós-exibição do filme vencedor do VI Brazilian Film Festival of London (BRAFF) 'Revelando Sebastião Salgado', de Betse de Paula, seguiu-se, na segunda sessão de domingo, o curta-metragem de animação 'Paleolito', de Ismael Lito e Gabriel Calegario.

'Paleolito' curta bem humorado e infantil, narra as aventuras de um homem das cavernas e sua busca diária por comida, representando os avanços das animações e toy arts brasileiras. O curta abriu para a comédia de costumes carioca 'Primeiro Dia de Um Ano Qualquer', de Domingos Oliveira.

Veja o trailer de 'Paleolito':

Comédia nacional
Domingos de Oliveira constrói seus roteiros numa inspiração denunciada por ele mesmo em Woody Allen? 'Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma' já dizia o químico e biólogo francês Lavoisier em evolução do pensamento do Grego Aristóteles. Se a fórmula das comédias inteligentes, discursivas e cheias de personagens excêntricos, histéricos e deveras reais de Woody Allen funciona, porque não adaptá-la para outros universos?

É com essa propriedade que Domingos se apossa da fórmula e faz a audiência ferver em contentamento com a inteligência de seu texto e, no caso desse 'Primeiro Dia de Um Ano Qualquer', cair em gargalhadas. O texto é dinâmico, as personagens são verossímeis e as situações que podem soar muitas vezes absurdas vão lembrar momentos de nossas próprias vidas e nos fazer conectar imediatamente com o contexto da história, que é muito simples: no amanhecer do primeiro dia de um ano qualquer após o Rèveillon, uma família e seus amigos hospedados numa luxuosa casa de campo vivem cada um deles momentos de crise que se esclarecerão até o fim de tarde do mesmo dia.

Assista ao trailer:

Essa simples sinopse é suficiente para dar vazão à criatividade do texto de Oliveira, um dos maiores diretores de cinema brasileiro com discurso cinematográfico pertinente, em atividade incessante nos últimos anos, no aude dos seus 77 anos. 'Já chegou a rodar dois filmes por ano...', confessou Renata Paschoal, produtora do cineasta nos últimos dez anos que esteve presente na sessão, '...e é tão inquieto e ativo que resolveu filmar esse filme durante um recesso de Carnaval'.

No elenco, figuram uma diversidade de atores e atrizes de diferente backgrounds, todos ótimos; um grande nome da TV, Maitê Proença; outros fortes do teatro como Alexandre Nero; a sua própria esposa e fiel escudeira, Priscilla Rozenbaum; a queridinha dos webshows do 'Porta dos Fundos', Clarice Falcão; e o cantor Ney Matogrosso, que, numa cena de no máximo 10 minutos do filme, vale toda a experiência; e o próprio Domingos Oliveira, no papel de um cineasta.

Num cenário único, a bela casa de campo é explorada em todas as suas nuances em criativos planos de câmera, no desenvolvimento da esquizofrenia individual e coletiva das personagens nas suas buscas pelo sentido da vida. Parafraseando um diálogo do filme 'Happy end não é para esse filme', mas em happy end sai a audiência satisfeita.

Filme sobre Sebastião Salgado vence o Festival de Cinema Brasileiro de Londres; leia resenha

Cena do filme "Revelando Sebastião Salgado"


Ainda no fluxo dos documentários apresentados na programação do Brazilian Film Festival of London, mais uma homenagem ao poetinha entra em cena, Vinicius' de Miguel Faria Jr., com a bela cine-biografia de Vinícius de Moraes que não podia faltar a seleção. Inclusive, para revelar ao público estrangeiro, e não familiarizado com nossa cultura, a saga do famoso e boêmio diplomata que fez sucesso e revolucionou a cultura musical do Brasil com sua destreza e domínio da língua portuguesa.
 
Em pleno domingo, sucedeu ao filme de Vinicius a sessão matinê das 18 horas com o curta 'A Queima', de Diego Benevides que até então, se comparado aos anteriores, é o mais simples em produção e provavelmente em orçamento. Entretanto tem um formato ambíguo, por horas parece um documentário, por outras uma ficção, na história de uma família que tenta se livrar da influência nefasta de um espirito chamado Macário. Faz se marcante a oportunidade dada a que um filme paraibano faça parte da seleção e promova os movimentos cinematográficos de outras regiões do Brasil.

Sessão lotada
Mas a grande estrela da noite era mesmo outro filme, que ao final do evento viria a ganhar a competição principal do Festival. A sala está lotada, com certeza a maior audiência do Festival, e é sabido que a razão dessa demanda é o forte nome do fotografo Sebastião Salgado e seu apelo e fama, muito maior fora do seu próprio pais.

E que história fascinante. Não me atrevo a dividir muito por que sugiro fortemente que quem possa assista ao documentário 'Revelando Sebastião Salgado', de Betse de Paula, que inclusive já esta disponível em DVD e já passa no Canal Brasil, um dos financiadores do projeto. 

Lembrando que Betse de Paula é filha do cineasta Zelito Viana, irmã do ator Marcos Palmeira, sobrinha de Chico Anysio. O grande mérito da cineasta foi em dominar a história de vida de Sebastião Salgado e conhecê-lo intimamente - suas famílias são amigas a 20 anos - para que em apenas três dias de entrevista ela conseguisse a narração de sua jornada de vida e de suas viagens fotográficas.

Impressionante a beleza do discurso oral de Salgado. Uma voz que nos entretém e seduz ao contar situações absurdas, épicas e cômicas. Um homem que é conectado e atento a sua missão profissional, social e familiar. Por horas controlador e no recorte de Betse Paula a todo momento genial.
 
Sebastião revisita sua infância em Minas, a migração para Europa, Londres e Paris, onde vive, suas inspirações na luz das pinturas dos pintores Holandeses, suas coleções de fotografias e daí por diante - se prepare para uma história de absurdos e de humanidade de um dos maiores fotógrafos sociais do mundo. De um homem que tem consciência ambiental até mesmo quando abre mão da sua favorita prática em fotografia analógica pela fotografia digital, por ser menos poluente.

Da trajetória pelas maiores agências fotográficas do mundo e suas fotografias emblemáticas como a sobre Regan e ou sobre a Serra Pelada. A razão por detrás de seus livros. Sua relação com seu núcleo familiar, também de artistas e seus projetos sociais. Enfim, para não soar descritivo, mas para atrair sua atenção, sugiro que assistam ao documentário eleito o melhor filme do Festival de Cinema Brasileiro de Londres. 

Veja o trailer: