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Exclusivo: première de 'Gata Velha Ainda Mia', novo filme de Regina Duarte, dirigido por Rafael Primot

CENA de "GATA VELHA AINDA MIA", de Rafael Primot
 
Um curta metragem antecede a cada longa metragem apresentado no Brazilian Film Festival of London (BFFL). O de estreia foi o curta "Graça", de Anna Clara Peltier - uma doce ficção sobre a transição da mulher da vida infantil para adolescente. Com lindos registros de imagens aquáticas a escolha do curta casou bem com o longa que o sucedeu por também tratar dos elementos do universo feminino.


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O filme escolhido para abrir a principal competição do Festival foi o "Gata Velha Ainda Mia", o primeiro longa dirigido por Rafael Primot, que fez a estreia da produção em Londres, para em seguida seguir em circuito no Brasil. 

Premiére europeia
Com sala cheia e recepção extremamente positiva, a sessão de perguntas e respostas, após a exibição com o aplaudido diretor, proporcionou à calorosa audiência esclarecer curiosidades sobre o filme e a distribuição do cinema brasileiro.

Na audiência alguém pergunta: "Gostei muito do filme e fiquei surpreendido com a atuação da atriz. Me parece que cinema brasileiro produz filmes muitos bons, mas porque não os conseguimos assistir nos circuitos de cinema?". Rafael Primot confessou a dificuldade da disputa de um filme de baixíssimo orçamento, como este, contra os blockbusters americanos e ou filmes de maior orçamento brasileiro. O filme vai estrear no Brasil em não mais que dez salas de cinema na semana que vem.
 
"Gata Velha Ainda Mia" chama atenção principalmente pela qualidade indiscutível do roteiro, escrito pelo próprio Rafael especialmente para Regina Duarte, com inteligentes reviravoltas das personagens e da história.

Segundo Primot, Regina Duarte, grande ícone da TV brasileira que completa 50 anos de carreira esse ano, reclamou sobre a dificuldade de encontrar um papel que não lembrasse as heroínas e mocinhas a qual ela é tão reconhecida por representar na TV. Tomado por essa inspiração em escrever para ela é que Primot, também ator, cria o universo da personagem Gloria Polk.

Gloria é uma senhora escritora que após um hiato de 17 anos sem escrever anuncia o lançamento de uma nova ficção e resolve conceder uma entrevista para sua vizinha de prédio, a jornalista e nova esposa do seu antigo marido, Carol (Barbara Paz).
 
A conversa entre as duas entra num universo de diálogos que percorre a vida das personagens mas que a todo o tempo referencia influentes nomes femininos no mundo, de Taylor, ou de Camille Paglia, quando não na voz de Gal Costa. O roteiro inteligente, então oferece suas reviravoltas de maneira fluida, engraçada e surpreendente na interpretação inspirada de ambas Regina Duarte e Bárbara Paz, também co-produtoras do filme junto ao Canal Brasil.

Atuação feminina em destaque
A grandiosidade da interpretação de Regina Duarte por diversas vezes nos remete as grandes atuações femininas no cinema como por exemplo a de Kathy Bathes em "Louca Obsessão", ou mesmo a de Bette Davis em "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?". Um filme que enaltece a força das divas cinematográficas e um roteiro que nas mãos de Hollywood daria um Oscar a sua interprete.

Espero que a apesar da modesta distribuição no cinema de "Gata Velha Ainda Mia", o filme consiga uma audiência de mérito, além de espaço noutros meios de exibição. Lembrando para que fiquemos de olho nos roteiros e filmes do talentoso Rafael Primot.

Assista ao making of de Gata Velha Ainda Mia:
 

José Wilker e Vinícius recebem homenagens na estreia do Festival de Cinema Brasileiro de Londres

ORFEU, de Cacá Diegues, estreou a mostra de filmes, com homenagem a Vinícius de Moraes

O VI Festival Brasileiro de Cinema de Londres estreou nessa sexta feira, 09 de maio, com a primeira homenagem a Vinicius de Moraes com a exibição do filme "Orfeu" de Cacá Diegues (foto em preto e branco abaixo). Pertinente homenagem ao poetinha que esta completando 100 anos de história. 

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A homenagem não estará presente apenas na escolha dos filmes relacionados a Vinicius de Moraes - como o outro longa, 'Vinicius, o filme', em cartaz no domingo, 11 de Maio as 16h -, mas também com um curta metragem/vinheta que antecede a exibição do filmes chamado “Autorretrato”, baseado no poema que Vinicius fez, de improviso sobre si, em 1956. O Festival é também dedicado a memória do recém falecido ator e ícone do cinema brasileiro José Wilker (antes das sessões também aparece uma mensagem na tela preta dedicada a Wilker).

A escolha de "Orfeu" para homenagear Vinícius e anteceder a programação competitiva (oito filmes concorrem por melhor filme em votação da audiência) é bastante feliz por dar a oportunidade de apresentar o filme de Diegues ao público inglês, dentro de um festival que tem por predominância filmes recém lançados, ou por lançar. Não encontrei registros de exibição desse filme na Inglaterra anteriormente

O que estabelece também a importância da distribuição de obras cinematográficas brasileiras não atuais que sofreram por falta de distribuição internacional na época de seus lançamentos em decorrência da ausência de um circuito/ festival que oferecesse o espaço para exibição e divulgação.

Além disso a exibição no estrangeiro do "Orfeu" de Diegues revitaliza um argumento pertinente escrito por Caetano Veloso num artigo intitulado 'Don't look black? O Brasil entre dois mitos: Orfeu e a democracia social'. No texto, além de desenvolver sobre questões raciais, Caetano Veloso discorre observações de como foi a aceitação da audiência brasileira e estrangeira das duas adaptações cinematográficas da peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes, que transpõe o mito de Orfeu para as favelas do Rio de Janeiro - o Orfeu de Cacá Diegues e o Orfeu Negro de Marcel Camus.

O Orfeu Negro de Camus foi uma produção francesa de 1959 reverenciada pelo mundo (Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), mas que sofreu certa rejeição no Brasil, inclusive do próprio Vinicius que acusou a produção de 'desfigurar' seu texto. Já o Orfeu de Diegues, adaptado para uma favela na virada do milênio, foi um sucesso de audiência no território brasileiro mas não teve forte distribuição internacional. Fez se então justiça na estréia da programação do festival com a oportunidade de (re)apresentar o Orfeu de Diegues, a versão mais popular no Brasil, mesmo que tendo por principal mote a homenagem a Vinicius, mantendo viva a sua obra e suas repercussões e pertinência a cultura brasileira.

Veja os traileres das duas adapações do Orfeu de Vinícius para o cinema:


"Orfeu Negro"

Crônica de uma morte anunciada: o fim do filme


Reprodução
Cena de 'Cinema Paradiso' de Giuseppe Tornatore

Dez anos atrás os grandes estúdios de Hollywood anunciavam que em uma década parariam de distribuir filmes em película - os famosos rolos de 35mm, que durante 120 anos na história do cinema foram o principal meio de distribuição dos filmes para os cinemas do mundo.

Ao anunciar a morte do filme os estúdios pretendiam preparar os circuitos exibidores, para a transição da exibição do projetor de filme para o projetor digital.

Em março de 2013, em nota oficial, a Fujifilm, uma das duas únicas produtoras de filme, a outra é a Kodac, anuncia o fim da produção dos 'Motion Pictures', o filme de 35 mm. Daí por diante todos os outros setores envolvidos na cadeia produtiva de uma película começam a anunciar o encerramento de suas atividades.

Em dezembro de 2013, a famosa processadora de filmes e pós-produtora francesa Techinocolor fechou seu laboratório em Glandale, depois do encerramento das atividades naquele mesmo ano dos laboratórios em Montreal e no Pinewood Estudios na Inglaterra.

Cinema digital
Antes disso, em 2012, a 20th Century Fox anunciou que dentre os próximos dois anos também encerraria a distribuição de filmes analógicos, mas foi a Paramount Pictures no fim de 2013 que anunciou 'O Ancora 2 - A Lenda Continua', de Adam MacKay, como seu último filme distribuído em 35mm nos Estados Unidos, e lançou o 'Lobo de Wall Street' de Martin Scorsese, exclusivamente em formato digital.

Os grandes estúdios alegam que esse “é um processo natural, a evolução do cinema” e que da mesma maneira que os filmes não tinham cor e som no passado e haviam resistentes a esse progresso, que haveriam portanto resistência à captação e distribuição digital.


O fim da película: redução de custos na anulação do "Digital Print Process"

Cineastas de diferentes gerações como Steven Spielberg e Christopher Nolan são contra a morte do filme e, em entrevista para o Hollywood Reporter sobre o tema, o popular diretor Quentin Tarantino alardeou: “Não consigo conceber fazer e distribuir cinema digital, entrei nesse ramo pela paixão à película e distribuir em digital é como assistir televisão em público”.

Acessibilidade
Em contra ponto aos apaixonados defensores da película, a queda dos custos de produção é tida como primordial vantagem da transição. Reduzem-se custos com a distribuição que deixa de ser física e passa a ser a satélite; com a digitalização da película; aumenta a qualidade da projeção; a flexibilidade da programação das salas e das programações alternativas como as em 3D, por exemplo.

O culto à pelicula e a sua projeção naturalmente abrirá caminhos para circuitos de cinema alternativos para a apreciação de seus entusiastas e futuras gerações assistirão a esses filmes como um experienciação estética do passado, uma aura “cult” emergirá dessa cultura.



Opinião: cinema brasileiro e o mercado internacional

(Foto: Plotagem da Agência Cinema Brasil durante Festival de Cannes)

Durante muitos momentos de leitura e análise do mercado audiovisual mundial fica claro, para mim, que o cinema brasileiro ainda não alcança o público que poderia internacionalmente.

Primeiro porque, como pregava Glauber Rocha no passado (mas continua presente), não existe uma estrutura de distribuição de cinema brasileiro estabelecida. Só recente em 2006, foi fundado o Cinema do Brasil, uma agência que tem por objetivo ampliar a participação do audiovisual brasileiro no mercado internacional. 


Continuamos na mão das grandes distribuidoras internacionais, entretanto, existe um outro detalhe que chama a atenção. Filmes brasileiros, como o recente “Cine Holiúdy” de Halder Gomes, por exemplo, são extremamente regionalistas, por tratarem de situações da nossa mais íntima cultura.

Produzimos filmes para o nosso mercado. Muitos com cara de novela e quase sempre falando de nossas idiossincrasias de maneira demasiadamente folclórica, vide “Ó Paí Ó” de Monique Gardenberg. E sim, existe uma dificuldade do público internacional em criar empatia com histórias - que para os olhos deles são excêntricas e auto-suficientes, exclusivamente da cultura do Brasil.

Entretanto, é importante frisar que o mercado de produção interna esta superaquecido, crescendo anualmente em números de produções, foram 83 longa metragens em 2012 (Agência Cinema do Brasil), vinte anos depois da Era Collor, e lembrando que em 1992 um único filme foi lançado, " A Grande Arte", de Walter Salles. Hoje em dia, diferentemente do passado, concorremos fortemente com os Blockbusters americanos, quando não os derrotamos na guerra pelas bilheterias, como é o caso das comédias nacionais.

Talvez, esse seja um sinal de que, aquecido internamente, o fluxo natural será a produção de filmes que expandam o seu alcance para o público internacional. Talvez em uma década tenhamos papel de destaque no alcance do nosso cinema fora do pais. Mas diferente do que foi projetado nos anos pré-Copa do Mundo 2014, o Brasil não soube usar da super exposição e interesse internacional para divulgar um cinema que faça um gringo se emocionar e desbravar a nossa rica cultura. Até agora.