Thais Mennsitieri

Teatro documental expõe mazelas políticas e sociais do México, em festival inglês

 

2015 é o ano do México no Reino Unido e o CASA/Festival Latino Americano de Teatro homenageia o país com uma programação de espetáculos predominantemente mexicanos. No último sábado, estive presente no Festival, conferindo os espetáculos no Rich Mix, em Londres.

O fim de semana de estreia do evento, que começou no dia 2 de Outubro, contou com duas produções do México: 'Aparte' (Colectivo Alebrije) e 'Montserrat' (Lagartijas Tiradas al Sol). 

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As semelhanças entre os espetáculos não se resume
m ao fato de que ambos são do mesmo país. Tanto 'Aparte' como 'Montserrat' são teatro-documental, ou seja, contam suas histórias a partir das experiências pessoais dos próprios atores, que são também autores e diretores das peças.

Recursos multimidia são utilizados pelos dois grupos para contarem histórias pessoais de perda, abandono, dor, solidão e busca, que acabam por reverberar o estado político e social de seu país. 

Nas duas produções, os atores esperam o público em cena. Uma tela branca, computador e outros objetos cênicos são manipulados pelos atores que mantém seus nomes verdadeiros e se valem de fatos e datas precisas, fotos e vídeos reais para encenarem suas histórias.

'Aparte' 

A produção do Colectivo Alebrije faz um paralelo entre uma história pessoal, no caso da avó de um dos atores, e um conflito global retratado através da cidade de León, onde a tal avó nasceu, em que bairros periféricos estão desaparecendo em favor de reformas e novas práticas comerciais.

A peça utiliza recursos cênicos interessantes para mergulhar no passado dessas histórias, como um retroprojetor antigo que permite um recorte de luz único, assim como desenhos feitos ao vivo - projetados na tela e no corpo dos atores. A dramaturgia é bem estruturada com momentos fortes, como o paralelo entre o que representa a nossa pele e a importância do couro para a indústria de León. No entanto, a grande quantidade de diferentes elementos cênicos e a constante manipulação de equipamentos tecnológicos pelos atores provoca uma quebra no ritmo da peça.

'Montserrat'



é um solo da cia Lagartijas Tiradas al Sol sobre a busca de um homem por sua mãe. Aos seis anos Gabino recebe a notícia da morte de sua mãe, Montserrat. Vasculhar a história da vida de Montserrat torna-se sua obsessão, até que finalmente ele descobre uma carta escrita por ela que irá mudar os fatos e revelar uma grande surpresa. 

Gabino começa a peça com uma carta endereçada a sua família, se desculpando por quaisquer transtornos que os fatos, que ele irá revelar, possam causar. Através de documentos em papel e da projeção de vídeos e fotos, Gabino faz um relato sincero e corajoso sobre sua busca por Montserrat. A precisão de detalhes e o tom factual se misturam a uma emoção inevitável, ao se tocar em um assunto extremamente pessoal.

Festival
O
CASA continua sua programação, no Rich Mix e Barbican, até dia 11 de Outubro, e o Brasil estará representado nos dias 8 e 9, com o espetáculo carioca 'OndeNunca Beckett' (confira aqui, em breve, a entrevista com o elenco).

Edinburgh Fringe Festival, o maior evento de arte do mundo


Agosto de 2015. Em 3 semanas, mais de 3 mil espetáculos e 2 milhões de ingressos vendidos. O Edinburgh Fringe Festival é o maior festival de arte do mundo e todo mês de Agosto transforma a encantadora cidade de Edimburgo, na Escócia em uma grande festa!

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Ângela de Castro: uma estrela brasileira no National Theatre de Londres 
'John': Hannes Langolf brilha em novo espetáculo do DV8 Physical Theatre


Durante minha curta passagem pelo Fringe, tive a oportunidade de vivenciar a efervescência e diversidade cultural que tanto ouvira falar desde que me mudei para Londres.

As atrizes Thais Mennsitieri e Noora Baker no Fringe

Além dos teatros, galerias e casas de shows permanentes da cidade, os organizadores do Fringe ocupam igrejas, bares, centros comunitários, ginásios, universidades, praças e parques, transformando-os em teatros e picadeiros perenes de todos os tamanhos e formatos necessários para abarcar a enorme quantidade de espetáculos apresentados no festival.

Feirinhas, praças de alimentação e festas são montadas especialmente para atender o público do Fringe e muitos pubs funcionam durante a madrugada, a cidade vira uma verdadeira mina de ouro.

Apesar do carro-chefe do Fringe serem os shows de comédia e stand-up, a programação, que acontece em todos os horários do dia e da noite, conta com espetáculos para todos os gostos – teatro, dança, circo, clown, mímica, teatro físico, infantil, cabaré e musicais, além de poesia, música e exposição de arte.

Squished Squared foi apresentado numa quadra de squash

Conversando com pessoas, lendo as críticas e releases ou apenas olhando para um cartaz, fui escolhendo o que eu queria assistir e montando meu quebra-cabeça. Em apenas 4 dias vi 11 espetáculos, uns excelentes e outros nem tanto, alguns bem comerciais e outros mais experimentais.

Por uma questão de gosto e pesquisa pessoal, privilegiei peças com foco no trabalho físico, valendo aqui citar o ótimo “Institute” (teatro físico / Gecko), “Last Man Standing”(dança / James Wilton Dance), o divertido e despretensioso “Squished Squared” apresentado numa quadra de squash (site-specific / Room 2 Manouver) e “Shakespeare’s Sisters” apresentado no “Palestinian Day”, um evento especial que celebrou trabalhos de artistas da Palestina (teatro / Al Harah Theatre).

Infelizmente, esse ano o Fringe não contou com um espetáculo de produção brasileira como no ano passado, quando fomos representados pela belíssima e sensível peça clown “O Sapato do Meu Tio”, de Salvador.

O Fringe funciona como uma grande janela para o artista expor seu trabalho não apenas para o grande público mas para colegas, críticos, diretores e produtores. Participar do festival não é função simples, pois são poucos os espetáculos convidados. A grande maioria dos artistas desembolsa recursos financeiros próprios ou consegue pequenos apoios para entrar na programação e, entre tantos shows, panfletos e cartazes, precisam batalhar para alcançar uma bilheteria gorda.

Mas, pelas conversas e experiência que eu tive e pelo que eu vi no Fringe, essa com certeza é uma batalha que mesmo perdida, vale a pena ser vivida!

PROFILE: Angela De Castro, a Brazilian Star at The National Theatre


In Treasure Island, playing at The National Theatre, Angela de Castro plays Israel Manos
a atriz Ângela de Castro vive Israel Manos. Foto: Johan Fersson

Now playing in Treasure Island that recently opened at The National Theatre, actress and theatre clown Angela de Castro accepted Eleven Culture’s invitation for a chat in the theatre’s cafe. In a long conversation, she tells a little of her journey and reveals the inside story of a successful career of a clown star in the UK. De Castro has toured the world performing in 34 countries and has participated in films such as "Light In Darkness," "Dandy Dust" and "Deviant Beauty". She is also a leading theatre practitioner, director and a clown teacher and the founder of the Contemporary Clowning Projects (CCP). Her performances and methodology have been awarded in the UK and abroad including an International Fellowship from the Royal Scottish Academy of Music and Drama for her contribution to the art of clowning.

  • Treasure Island is playing in The National Theatre until the 8th of April 2015. For more information and to tickes visit National theatre's  official website.


After receiving a honourable mention from the Brazilian Union of Writers in her adolescence, the Rio de Janeiro bourn teenager - by chance (a recurrent word in her life) - while accompanying a friend to an audition, ends up being invited to take the audition and "unintentionally" enters the theatre world professionally. At 21 and in love, she moves to Sao Paulo and ends up working with renowned directors such as Antunes Filho, with whom she debuts the acclaimed theatrical production "Macunaíma", remaining in the show for four years. On tour with "Macunaíma" through Europe, De Castro encounters for the first time the work of the clown and finds her true artistic path.
 

Back in Brazil and searching for this ‘new theatre form’, she decides to open her own theatre and circus company with José Lavigne (former director of the successful Brazilian TV show “Casseta e Planeta”) “- where she produced, performed and won several awards. De Castro then returns to Europe touring with a new production of her company and aware that she hadn’t properly managed to develop the clown work in Brazil, she decides to take a workshop in London. This was the beginning of her international career and her permanent residency in the UK.  

The cast of Treasure Island during rehearsal: Alexandra Maher, Claire-Louise Cordwell, Lena Kaur, Heather Dutton,
Raj Bajaj, Patsy Ferran, Angela De Castro, Ben Thompson and Jonathan Livingstone. Foto by Johan Persson

>> Interview: 

Thais Mennsitieri – From a promising young writer you became a stage actress, how did that happen?
Angela de Castro - I had no intention of becoming an actress. My business was writing and becoming a poet. So much so that I went to the university of literature, but only attended half a year. I was accompanying a friend to an audition for a professional theatre piece, I was sitting there waiting for her when the director came and invited me to take the test because he needed an even number of actors… I laughed so much, it was something about animals… I ended up landing the part and my friend didn’t. It was the end of that friendship and the beginning of my career (laughs). The director was Luiz Mendonça, who is a director of popular theatre, a guy from the Northeast of Brazil, super cool. At the time, he had the Arena Theatre in Rio de Janeiro.

Thais - Thais – Why did you swap Rio de Janeiro for São Paulo?
Angela – My life and my profession, it was all by chance. Actually I didn’t really move to São Paulo because of theatre, I went because I fell in love and went to live with that person. I didn’t know anyone there, actually I knew 2 people: Denise Stoklos and Claudia de Castro – who isn’t related to me but is also an actress. One day I was walking on the streets when by chance I bumped into the choreographer of the animal piece I did in Rio and he told me that Mendonça was in town and looking for the cast of his new pastoral show. I went and that is how I started working in São Paulo.  

Thais – And then the theatre of São Paulo opened it’s doors for you….
Angela – I meet many actors from São Paulo in that show and I became good friends with one of them, Lizete Negreiros. She told me of an audition for a show about the life of Noel Rosa in the Sesi Theatre and invited me to go with her. I asked what it was about and she said it was to compose the ballet cast (laughter). I said: ‘look at us, we’re not ballerinas!’ (laughter) But she insisted, we went and we landed the part, it was great. I did this show for a full year.  

Thais – And how did your partnership with Antunes Filho begin?
Angela - In this cast I met Anali Prestes who told me: ‘Antunes will like you’. I didn’t understand why because I was doing such a small part in that piece but she insisted: ‘go there, he is working on this new show for the syndicate’. He had just returned form Europe and wanted to research physical theatre, do something new and used the syndicate, which produced many workshops every year, as a platform to try out this new thing.

Thais – You worked in “Macunaíma” for 4 years, why did you decide to leave the show?
Angela – When I started on “Macunaíma” I already had a few years of professional career, my colleagues were all doing better parts, lead parts while I was more interested in parts that didn’t speak much, parts with a possibility of creating their own narrative and that started to bother me… but why do I only like to do small parts and have this passion for details? Then when we were touring in Europe with “Macunaíma”, I went to a festival and we were all there, Peter Brook, Pina Bausch, but every one was talking about this show in the alternative circuit and I went to see it. It was a one man show, two chairs and a little packaged and the entire show was passing this packaged from one chair to the other trying to find the best place for it. Everyone was so thrilled and I was like: ‘gosh what is this? I never saw this kind of theatre before’ and this guy said to me: ‘this is clowning’. It was when it hit me and I said: ‘this is what I am!’ I’m not strange, I’m not weird… I’m this! Then I went back to Brazil, left Macunaíma and started this research.

Thais – Was it during this research that you founded your company with José Lavigne?

Angela – Yes but it wasn’t the clown work, no one knew what was that in Brazil, they though I was crazy. Then I founded a theatre and circus company with José Lavigne, we produced 2 shows, it was a huge success but it still wasn’t clown.

Macunaima: Cacá Carvalho, Deivi Rose, Ângela de Castro, Mirthes Mesquita, Isa Kopelman,
Salma Buzzar e Theodora Ribeiro. Foto: Ruth Toledo (Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo) 

Thais – When you were working with José Lavigne you received an invitation to tour your show in Europe. Was it during that period that the clown entered your professional life?
Angela – I only started working with clown in 1986, six years after I saw the art of clowning during my first trip to Europe. When I came back the second time, I decided to pass by London to visit a friend of mine who is a doctor, nothing related to theatre but she told me: ‘look, you know this clown thing that you keep talking about? There is a clown workshop here in London. Why don’t you stay here with me and do this course? I can help you!’ So I talked to Lavigne and he said: ”stay, you have always wanted this.’ So I stayed…

Thais - And how did your career begin in the UK?
Ângela -Angela – I ended up staying longer to do the advanced part of the workshop, I stayed six months. When I was going to return to Brazil they called me to do an audition. I went out of curiosity, just to see what was an audition like here in the UK, I wasn’t particularly keen on doing the show, but I landed the part. They offered me a 4 year contract with a theatre and circus company with actors and clowns from Lecoq.

The theatre clown is based on a line of thought and not so much on the sake of being funny, which is great also don’t get me wrong,
but it’s another style.” 

Thais – You work with the theatre clown, is there any difference with the clown form the street and the circus?
Angela – It’s a polemic issue and I want to make it very clear that there is no comparison, there isn’t a worse or better, it is purely a matter of style. The street clown has a more popular appeal, it’s quicker, the circus clown has a developed technique, it has acrobatics, the slap-stick and so on. The theatre clown is based on a line of thought and not so much on the sake of being funny, which is great also don’t get me wrong, but it’s another style.  

Thais – How did you end up working for the National Theatre’s new show Treasure island?
Angela – It was also by chance. I was going to direct a Brazilian actress in France and then give a workshop in São Paulo when I received a call form the casting director of the National Theatre, which by chance I already knew, and she asked me if I was available so I told her: ‘maybe, why?’ Then she said: ‘do you want to come here and play a character that speaks Spanish?’ Well, I speak a cheeky mixture of Spanish and Portuguese so I went! I discovered that I had already worked with Bryony Lavery who did the adaptation, she wrote a play for me called “My Life is Like a Yo-yo’ and I also knew the director, so I did the table reading and they called me.


"One of my dreams was to work at the National Theatre. This show is a super production of the National, a production for all ages"

Thais – Tell me a little bit about this show.
Angela – I have many dreams and I am very blessed that I manage to fulfill all of them. One of my dreams was to work at the National Theatre. This show is a super production of the National, a production for all ages, what they call family show and they do it every year, this year it’s Treasure Island.


Watch  the trailer of "Treasure Island":

Thais – And do you play a small character, as you like it?

Angela - Yes! It’s a very small character and I speak Portuguese! I get super confused because the English language is now so spontaneous that sometimes I speak English thinking I am speaking Portuguese (laughter). It’s a male role; I use a beard and a fake tommy. He is a pirate, completely inept, he is a good sailor and that is the only reason why he is there but he fumbles around, falls all the time, it’s great! It’s worth it; suddenly a huge ship appears form underneath the stage in the middle of the show!

 

Perfil Ângela de Castro: uma estrela brasileira no National Theatre de Londres


No espetáculo A Ilha do Tesouro, em cartaz no National Theatre,
a atriz Ângela de Castro vive Israel Manos. Foto: Johan Fersson

Em cartaz com o espetáculo Treasure Island (Ilha do Tesouro) que acaba de estrear numa das casas de teatro mais renomadas de Londres, o National Theatre, a atriz e clown de teatro Ângela de Castro aceitou o convite da Eleven Culture para um bate-papo no café do teatro. Numa longa conversa, ela conta um pouco da sua trajetória e revela os bastidores da carreira de sucesso de uma estrela do clown na Inglaterra. De Castro já se apresentou em diversas turnês mundiais, tendo passado por 34 países, além de participado de filmes como "Luz Nas Trevas", "Dandy Dust" e "Deviant Beauty". 

Ela é também diretora e professora de clown e a fundadora do Contemporary Clowning Projects (CCP). Suas performances e metodologia foram premiadas no Reino Unido e internacionalmente, incluindo um prémio da Royal Scottish Academy of Music and Drama por sua contribuição a arte da palhaçaria.

  • "A Ilha do Tesouro" fica em cartaz no National Theatre, em Londres, até o dia 8 de Abril de 2015. Para maiores informações e ingressos, acesse o site oficial.


Depois de receber uma menção honrosa da União Brasileira de Escritores ainda na adolescência, a carioca Ângela de Castro, na época com 17 anos, num acaso (palavra recorrente em sua vida), ao acompanhar uma amiga atriz a um teste de elenco num teatro em Ipanema, acaba sendo convidada a fazer teste e "sem querer" entra para o teatro profissionalmente. Aos 21 anos, apaixonada, ela se muda para São Paulo e começa a trabalhar com diretores renomados como Antunes Filho, com quem estreia o aclamado espetáculo teatral "Macunaíma", no qual permaneceu por quatro anos. Em turnê com “Macunaíma” pela Europa, De Castro conhece pela primeira vez o trabalho do clown e encontra seu verdadeiro caminho artístico.
 

De volta ao Brasil e a procura desse ‘novo teatro’ que encontrou na Europa, acaba se associando ao diretor José Lavigne (ex-diretor do Casseta e Planeta) abrindo sua própria companhia, a “Trutas e Mutretas Diversões” - onde produziu, atuou e ganhou diversos prêmios. De Castro então retorna a Europa em turnê com uma produção da sua nova companhia e consciente de que ainda não havia conseguido desenvolver o trabalho do clown com propriedade no Brasil, resolve fazer um curso em Londres. É ai que se dá o início de sua carreira internacional e sua radicação permanente no pais. 

Elenco de Treasure Island no ensaio: Alexandra Maher, Claire-Louise Cordwell, Lena Kaur, Heather Dutton,
Raj Bajaj, Patsy Ferran, Angela De Castro, Ben Thompson and Jonathan Livingstone. Foto by Johan Persson

>> Confira entrevista exclusiva com a atriz brasileira Ângela de Castro, direto de Londres: 

Thais Mennsitieri - Como se deu a passagem de jovem escritora promissora para atriz de teatro?
Ângela de Castro - Eu não tinha a menor intenção de ser atriz. Meu negócio era escrever e ser poeta. Tanto que entrei pra faculdade de Letras, mas só cursei meio ano. Acompanhando uma amiga a um teste para uma peça profissional, eu tô lá sentada esperando ela, e chega o diretor me chamando para fazer o teste pois precisava de mais uma pessoa para formar número par… morri de rir era um negócio sobre animais, tinha uns bichos na história… Acabei passando e minha amiga dançou. Foi o fim daquela amizade e o início da minha careira (risos). O diretor era o Luiz Mendonça, que é um diretor de teatro popular, pastorio, um cara do Nordeste, super legal. Na época, ele tinha o Teatro de Arena do Rio de Janeiro, no largo da carioca.

Thais - Por que a mudança do Rio de Janeiro para São Paulo nessa época?
Ângela - Minha vida, minha profissão, é tudo meio por acaso. Na verdade, eu não fui pra São Paulo por causa do teatro, fui porque eu me apaixonei por uma pessoa e fui morar com essa pessoa. E lá, eu não conhecia ninguém, aliás conhecia duas pessoas: a Denise Stoklos e a Claudia de Castro - que não é minha parente mas também é atriz. E um dia eu tava andando na rua, e por acaso, encontrei com o coreógrafo da peça dos animais que fiz no Rio e ele me disse que o Mendonça estava na cidade procurando elenco pra um pastorio de fim de ano. Eu fui, e assim comecei a trabalhar em São Paulo. 

Thais - E aí o teatro de São Paulo se abriu...
Ângela - Nessa peça conheci atores paulistanos, alguns eu fiquei muito amiga e uma delas, a Lizete Negreiros me falou de um teste no Sesi pra um espetáculo sobre a vida do Noel Rosa e me convidou para ir com ela. Eu perguntei o que era, ela disse que era pra o corpo de baile (risos). Eu falei: 'olha pra gente, a gente não é bailarina' (risos). Mas ela insistiu, fomos e passamos, e foi um barato. Fiquei um ano fazendo essa peça. 

Thais - E como foi que surgiu sua parceria com Antunes Jr.?
Ângela - Nesse elenco, eu conheci a Anali Prestes que falou pra mim: 'o Antunes vai gostar muito de você'. Eu nunca entendi por quê, pois eu fazia um papel mínimo mas ela insistiu: 'Vai lá, ele tá fazendo um projeto lá pro sindicato'. Ele tinha acabado de voltar da Europa e queria pesquisar o physical theatre, tentar fazer uma coisa nova e usou o sindicato, que promovia cursos todos os anos, como plataforma para testar esse troço. Então lá fomos nós - 400 pessoas fazendo o teste, três dias. Aí eu passei. Era pra ficar um mês com 30 pessoas, depois reduziu pra 15, e foi assim que começou o "Macunaíma".

Thais – Você trabalhou no “Macunaíma” durante 4 anos, porque decidiu sair?
Ângela – Quando eu comecei a fazer “Macunaíma” eu já tinha alguns anos de carreira, meus contemporâneos já estavam todos fazendo papeis mais legais, protagonistas e eu sempre gostava de fazer papéis que não falavam muito, personagens com possibilidade de criar sua própria narrativa e isso começou a me incomodar... mas porque eu só gosto de personagens pequenos e tenho essa paixão pelo detalhe? Ai quando estávamos em turnê aqui pela Europa com o Macunaíma eu fui num festival e nós estavam todos lá, o Peter Brook, a Pina Bausch mas todos estavam falando de um espetáculo na mostra paralela e eu fui ver. E era um espetáculo com um cara sozinho com duas cadeiras e um pacotinho e o espetáculo inteiro era passar o pacote de uma cadeira para outra procurando qual era o melhor lugar pro pacote dele. Todos ficaram super emocionados e eu falando gente, o que é isso, eu nunca vi esse tipo de teatro e um cara me disse: ‘isso é o teatro clown’. Ai é que a ficha caiu e eu falei, ah é isso ai que eu sou! Eu não sou esquisita, não sou estranha... eu sou isso! Ai eu voltei pro Brasil, saí do Macunaíma e comecei essa procura.


"Ninguém sabia o que era isso
(o clown de teatro) no Brasil,
achavam que eu tava maluca"
.



Thais – Foi durante essa procura que você fundou sua companhia com o diretor José Lavigne?

Ângela
– Sim mas ainda não era o trabalho do clown, ninguém sabia o que era isso no Brasil, achavam que eu tava maluca. Ai fundei uma companhia de circo e teatro com o José Lavigne, fizemos 2 espetáculos, foi o maior sucesso mas ainda não era isso. 

Peça "Macunaíma": Cacá Carvalho, Deivi Rose, Ângela de Castro, Mirthes Mesquita, Isa Kopelman,
Salma Buzzar e Theodora Ribeiro. Foto: Ruth Toledo (Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo) 

Thais – Ainda quando estava trabalhando com o José Lavigne, você recebeu um convite para apresentar uma peça na Europa. Foi nesse período que o clown entrou na sua vida profissional?
Ângela -Eu só comecei a trabalhar com o clown em 1986, seis anos depois que conheci o palhaço na minha primeira viajem a Europa. Quando voltei pela segunda vez, resolvi passar por Londres pra visitar uma amiga médica, ela não tinha nada a ver com teatro, mas ela me falou: 'olha, sabe esse negócio de clown que você fica falando? Vai ter um curso aqui em Londres. Por que você não fica aqui comigo e faz esse curso? Eu te ajudo'. Aí eu falei com o Lavigne, e ele falou: 'fica, você sempre quis isso'. Aí eu fiquei...

Thais - E como se deu o início da sua carreira no teatro britânico? 
Ângela - Eu acabei ficando mais tempo pra fazer o avançado do curso, fiquei seis meses. Quando eu ia voltar pro Brasil me chamaram pra fazer um teste. Eu fui por curiosidade, só pra saber como os testes eram feitos aqui, nem tinha o menor interesse de fazer a peça, mas passei no teste. Eles me ofereceram um contrato de quatro anos aqui com uma companhia de circo e teatro com atores e palhaços da Lecoq.

“O palhaço do teatro é baseado em ideias
e não tanto na gague, não é uma coisa
engraçada pelo engraçado, que é ótimo
também, mas é outra linha”
 

Thais – Você trabalha com o palhaço do teatro, qual a diferença desse palhaço com o da rua e do circo?
Ângela – Isso é uma polêmica muito grande, eu quero deixar bem claro que não há uma comparação, não há um melhor ou um pior, são apenas linhas diferentes.O palhaço da rua tem um apelo mais popular, mais rápido, o do circo tem mais técnicas desenvolvidas, tem as acrobacias, o slap-stick etc. O palhaço do teatro é baseado em idéias e não tanto na gague, não é uma coisa engraçada pelo engraçado, que é ótimo também mas é outra linha. 

Thais – Como aconteceu o convite para trabalhar no novo espetáculo do National Theatre, o “Treasure Island”?
Ângela – Também foi por acaso. Eu tava pra ir dirigir uma brasileira na França e depois dar uma oficina em São Paulo quando recebo uma ligação da diretora de elenco do National Theatre, que eu já conhecia por acaso e ela me perguntou se eu estava disponível, eu falei: 'talvez, por quê?'. Ela disse: 'você quer vir aqui fazer um personagem que fala espanhol?'. Bom, eu falo um portunhol, então, fui! Descobri que eu ja tinha trabalhado com a autora que estava fazendo a adaptação, a Bryony Lavery, ela escreveu um espetáculo para mim chamado “Minha Vida Que Nem Um Ioiô” e eu também já conhecia a diretora então fiz a leitura e eles me chamaram.


"Um dos meus sonhos era trabalhar
no National Theatre. Esse espetáculo
é uma super produção do National,
uma peça para todas as idades"


Thais – Me fala um pouco sobre esse espetáculo.
Ângela - Eu tenho vários sonhos e sou muito abençoada porque consigo realizar todos eles, pode demorar mas eu realizo. Um dos meus sonhos era trabalhar no National Theatre. Esse espetáculo é uma super produção do National, uma peça para todas as idades que eles chamam de ‘family show’ e eles fazem todo ano, esse ano é “A Ilha do Tesouro”.


Assista ao trailer de "Treasure Island":

Thais – E o seu personagem é pequeno como você gosta? Sem muita fala?

Ângela
– Sim! Um papel mínimo e ainda falo em português! Me atrapalho toda porque o inglês já é tão automático em mim que eu falo inglês pensando que tô falando português (risos). É um personagem masculino, uso uma barba e uma barriguinha. Ele é um pirata completamente inepto que é somente um bom navegador e é por isso que ele tá ali mas ele mesmo se atrapalha todo, cai toda hora, muito legal. Vale a pena, ainda por cima tem um navio enorme que me aparece do chão no meio do espetáculo!

 

John: actor and dancer Hannes Langolf shines in DV8's new show

 The astonishing Hannes Langolf, who plays John (by Hugo Glendinning)


DV8 Physical Theatre’s new show, which has recently opened at the National Theatre is the company’s latest verbatim dance-theatre performance, but instead of using several stories of real-life people as portrayed in their previous work ‘Can We Talk About This?’ this work follows only one story.


After interviewing more than 50 men about their love and sex life, Lloyd Newson, the artistic director of DV8 decided his new piece would be a personal perspective of one man’s story: John.

In a simple but effective set, the cast constantly switches roles to help portray the roller-coaster life of a man marked by abusive parents, drugs, crime, homelessness, prion, loneliness and love. The only actor/dancer to remain in the same role throughout the performance is the astonishing Hannes Langolf, who plays John.

There is on other word to describe Langolf’s work but brilliant! He is absolutely in control of his movements, voice and energy and even though he embodies a troubled man with a dark life, he delivers a performance full of humour and humanity.

 "The intense and intelligent movements makes it a performance worth watching,
especially to see Langolf's remarkable work on stage"
 

However, the talented cast and the great story aren’t enough to save the performance from moments of predictability and certain boredom, especially when John is released form prison and his six life resumes to a gay sauna. This is the moment where John’s story blends with the story of so many other lonely “Johns” seeking “love”. The scene extends itself to a point where the movements become predictable and we have a feeling of seeing the same thing over and over again.

Even though “John” is not DV8’s most brilliant work and it lacks freshness, the aesthetics of the intense and intelligent movements that helped raise the company to fame, still makes it a performance worth watching, especially to see Langolf's remarkable work on stage.

While Brazil is still not in the touring programme of “John”, the Brazilian audience living or visiting London until the 13th of January 2015 should take this opportunity to see a good piece of theatre off the west end main stream musicals. 

Lloyd Newson’s UK-based company was made famous in Brazil with the multi award-winning dance film ‘The Cost of Living’ that took the Audience Choice Award at the Festival of Dance Film for the Camera 2005 in Brasilia.