Thais Mennsitieri

John: ator e dançarino Hannes Langolf brilha em novo espetáculo do DV8 Physical Theatre

Brilhante: Hannes Langolf, faz o papel de 'John' (Foto: Hugo Glendinning)

O novo espetáculo do DV8 Physical Theatre, que acaba de estrear nos palcos londrinos no National Theatre, é a produção de teatro-dança-documentário mais recente da companhia, mas ao invés de uma colagem de diferentes histórias de pessoas reais como retratado no trabalho anterior “Can We Talk About This?” (Nós Podemos Falar Sobre Isso?), o foco desse espetáculo é apenas uma história.

Após entrevistar mais de 50 homens acerca de suas histórias intimas de amor e sexo, o diretor artístico do DV8 Lloyd Newson, decidiu que seu novo trabalho seria uma perspectiva pessoal da história de somente um homem: John, em português, João.

Num cenário simples mas efetivo, o elenco troca constantemente de personagens para retratar a montanha-russa que foi a vida de um homem marcado por pais abusivos, drogas, crime, prisão, solidão e amor. O único ator/dançarino que mantém o mesmo personagem durante todo o espetáculo é o surpreendente Hannes Langolf, que faz o papel de João.


Não há forma melhor para descrever a performance de Langolf se não brilhante! Ele está em controle absoluto de seus movimentos, voz e energia e embora represente um homem perturbado por uma vida sombria, sua performance é cheia de humor e humanidade.

"A estética corporal inteligente e intensa fazem essa performance valer a pena,
principalmente, o trabalho excepcional de Langolf no palco"

Entretanto, um elenco talentoso e uma grande história não foram suficientes para salvar o espetáculo de momentos de previsibilidade e certo tédio, principalmente quando João é libertado da prisão e sua vida sexual de resume a uma sauna gay. Este é o momento em que a vida de João se confunde com a de tantos outros solitários “Joãos” em busca de “amor”. A cena se estende a tal ponto que os movimentos se tornam previsíveis e temos a impressão de estar assistindo a mesma coisa se repetindo.

Apesar de “John” não ser o espetáculo mais brilhante do DV8 e de faltar frescor ao novo trabalho, a estética corporal inteligente e intensa que trouxe fama à companhia certamente fazem essa performance valer a pena, principalmente para conferir o trabalho excepcional de Langolf no palco. 

O Brasil não está incluso na turnê de “John” mas o público brasileiro que estiver morando ou de passagem por Londres até o dia 13 de Janeiro de 2015 tem uma ótima oportunidade de conferir um espetáculo fora da rota turística dos musicais do West End.

A companhia inglesa de Lloyd Newson se tornou famosa no Brasil com o premiado vídeo-dança ‘The Cost of Living’ (O Preço da Vida), que levou o prêmio do público em 2005 na Mostra de Filmes Dançando para a Câmera em Brasília.

 

 

Um templo para o desacelerar: 512 horas com Marina Abramović

Marina Abramivić vai ao Brasil em 2015 

Terminou na última segunda-feira(25), em Londres, a performance 'Marina Abramović: 512 Horas' na Serpentine Gallery. Desde o dia 11 de junho, quando estreou o novo show, a “avó da performance” atraiu ao local cerca de 110.000 visitantes. Durante o mês de Agosto estive lá em duas oportunidades.  

  • Clique aqui para ver o vídeo da série 'Serpentine Diaries', onde ela fala do último dia de show

Na primeira vez, fiquei tão imersa na experiência que demorei para perceber a ausência de Abramović, que havia saído para almoçar. Resolvi fazer o mesmo e uma hora depois estava de volta, encarando a fila novamente para encontrar com a artista. Finalmente, a Abramović dos meus livros e filmes estava agora na minha presença, com seus longos cabelos negros trançados, combinando com o longo vestido preto.  

Serpentine Gallery, em Londres

Ela estava imóvel em uma cadeira, olhos fechados e silenciosa, camuflada entre os visitantes. Por mais que eu soubesse que essa era uma performance para ser vivida e não havia nada para assistir ou ver, a ficha só caiu realmente nesse encontro com a artista.  

Quem foi para ‘ver’ alguma coisa, com certeza saiu decepcionado. Quanto voltei na última semana (pois sabia que alguns elementos da performance mudavam diariamente), durante minha espera de 2 horas na fila, escutei uma senhora brasileira reclamando: "não consigo acreditar que eu esperei horas nessa fila pra entrar numa sala vazia e ver um monte de parede branca!” 

"Nossa cultura é baseada na culpa, na pressão de fazer acontecer;
nós damos às pessoas permissão para não fazer nada
– somente estarem consigo mesmas"

A performance subverte completamente os papeis tradicionais de performer e público e coloca quem observa para ser observado e vice-versa. Esse é um trabalho que ganha vida somente no momento em que o visitante se movimenta pelo espaço e vive as pequenas ações propostas pela artista. 

Abramović e seus assistentes estão ali somente para dar partida no motor e abastecer o combustível. Numa entrevista recente ao jornal inglês The Observer, ela explica o conceito de 512 Horas:

“Em 1989, eu dei uma entrevista em que disse que a arte do século 21 seria uma arte onde não existiria nada entre o artista e o visitante, que seria uma troca de energia, e foi assim que acabou acontecendo aqui. Olhar alguma coisa não é experienciar essa coisa; isso aqui é experiência. Nossa cultura é baseada na culpa, na pressão de fazer acontecer; mas aqui, nós damos as pessoas permissão para não fazer nada – para fechar seus olhos e somente estarem consigo mesmas. O que damos as pessoas são elas mesmas. O cérebro é como uma Ferrari… nós ajudamos a desacelerá-lo.”


Na fila para conferir a performance pela primeira vez

Unplugged

Ao entrar na galeria, a instrução é deixar por ali o celular, relógio e qualquer objeto que possa ser uma distração. Recebi um fone de ouvido que, ao invés de ser ferramenta para a transmissão de algum tipo de instrução, música ou história, servia para bloquear todo o som externo. Ao colocar o fone minha perspectiva mudou completamente, minha própria respiração ficou evidenciada e pude escutar o silêncio. 

Na sala principal algumas pessoas caminhavam enquanto outras somente paravam, em pé ou sentados. No centro da sala foi colocado uma espécie de palco de madeira num formato que lembrava uma cruz ou, segundo a amiga que me acompanhava, lembrava a representação do primeiro chakra (ou chakra raiz). Abramović e seu assistentes levavam algumas pessoas para o ‘palco’ e sinalizavam que fechassem os olhos. 

Nas duas salas adjacentes, os visitantes eram convidados a realizarem ações simples como deitar numa maca, caminhar pelo espaço lentamente, caminhar de olhos vendados, sentar numa daquelas mesinhas de escola para contar e separar as lentilhas do arroz (contei 615 lentilhas, mas quando estava na metade do arroz, a echarpe de uma moça voou pela minha mesa misturando tudo novamente!).

110.000 pessoas foram conferir o show Marina Abramović: 512 Horas, em Londres

A avó da performance

Abramović é notoriamente famosa pelas suas performances radicais como Rhythem 0, no qual na década de 70, ela disponibilizou uma mesa com 72 objetos para o público usar nela como desejasse – entre eles um revolver carregado - e A Artista está Presente (The Arist is Present), onde no MoMa de Nova York em 2010, ela sentou passivamente por 700 horas enquanto o público se revezava para sentar na sua frente.

No entanto, Abramović considera 512 Horas seu trabalho mais profundo até hoje. Usando o que ela chama de Método Abramović – uma série de exercícios destinados a aumentar a consciência da experiência física e mental no momento presente dos participantes – a artista testa não apenas seus próprios limites mas cria uma obra onde o visitante faz o mesmo.

Demorou três anos para Abramović se recuperar do seu show A Artista Está Presente e nesse momento ela já está de volta a sua casa em Nova York para um retiro de 10 dias - onde ficará isolada de qualquer contato humano recompondo suas energias.

Abramović no Brasil

Os brasileiros terão a oportunidade de ver um trabalho inédito da artista em março de 2015 em São Paulo, no Sesc Pompéia e uma grande retrospectiva de sua obra no Sesc Belenzinho. A artista viaja ao Brasil desde 1989 em busca de lugares com poder energético, de pessoas com poder, como João de Deus e rituais indígenas como o com ayahuasca. Marquem na agenda essa data porque Marina Abramović está pronta para mostrar seu trabalho ao Brasil!

TURFED: performance uses principles of football to report the hard life of homelesses

While the World Cup is heating up in Brazil, London stages one of the biggest cultural events of 2014: LIFT the London International Festival of Theatre.

 

The months preceding the arrival of the World Cup in Brazil were marked by protests of civilians flooding the streets claiming for improvements in public service and against corruption and social inequality in the country. LIFT in partnership with Street Child World Cup commissioned a show that couldn’t represent better the context of the present World Cup, 'Turfed' is a show that draws a parallel precisely between football and youth homelessness. 

Brazilian director Renato Rocha brings together an international cast of youngsters with experience of abandonment, some who have actually lived on the streets, and taps into issues of a harsh reality that affects not only Brazil but the whole world, including London. 

Behind the scenes of Turfed:

Rocha uses the aesthetics and basic principles of football as an analogy to the survival game of young homeless people. After an intense process of research and collaboration that used the actual experience and personal stories of the cast, the outcome is an honest but very poetic and delicate show that makes questions and leaves space for personal and subjective readings. 

Turfed mixes artistic languages (the show uses elements of theatre, dance, spoken word and video projection), builds a fragmented narrative and rearranges the audience’s position in space. 

The audience enters into a huge warehouse where isolated actions happen simultaneously, having the freedom to move in space and see whatever they wish. Simple actions slowly transform into short solos in which disturbed characters talk about death, body, abandonment and solitude. The audience is then literally swept in half and the action takes center in a wide corridor that is later transformed into a huge football field.

Watch the trailer: 

It is worth mentioning a scene where a boy kicks several footballs into the goal, one by one in a crescendo rhythm pounding against the wall as a girl sings in a bathtub. A clear and simple action that portrays very poetically the feeling of isolation and anger of those kids. Perhaps the greatest flaw of the show is precisely the constant change and excessive use of many different elements.

It’s in the football field where uniform shits are distributed, where young people gain a name and become part of a team; it’s in the football field where we understand the power of teamwork and the desire of belonging and winning. Rocha knows what he wants to say however, what inspires him as an artist are the multiple possibilities of how the audience will receive and comprehend his story. I also can write about ‘Turfed’ however, the experience of this show can only be live and is different to each one of us.

Turfed’ is on until the 21st of June. To see the complete programme of LIFT and get details of events and shows, click here.


*Thais Mennsitieri is a Brazilian actress, performance maker and co-founder of CACTUS Performance.Art.Collective, besides signing the column of theater, dance and performance at Eleven Culture Magazine.

 

TURFED: espetáculo usa princípios do futebol para denunciar a dura vida dos jovens moradores de rua

Enquanto a Copa do Mundo acontece no Brasil, Londres é palco de um dos maiores eventos culturais de 2014, o LIFT (Festival Internacional de Teatro de Londres).

Os meses que antecederam a chegada do mundial da FIFA no Brasil, foram marcados por protestos de civis que pediam nas ruas melhorias nos serviços públicos e contra a corrupção e a desigualdade social no país. Pensando nisso, o LIFT, em parceria com o Street Child World Cup, apresentou 'Turfed', um espetáculo que faz um paralelo justamente entre futebol e a vida de jovens sem teto.

O diretor brasileiro Renato Rocha reúne um elenco internacional de jovens com experiências de abandono, dois dos quais inclusive já foram crianças de rua, para abordar de forma poética uma dura realidade que assola não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro, incluindo Londres.

Bastidores de 'Turfed':
 

Rocha utiliza a estética e os princípios básicos do futebol como uma analogia ao jogo de sobrevivência dos jovens que moram nas ruas. Depois de um processo intenso de pesquisa e colaboração que utilizou as experiências e os relatos pessoais do elenco, o resultado é um espetáculo honesto mas delicado, que lança perguntas e lida com o público de forma inteligente, deixando espaço para leituras pessoais subjetivas.

Turfed mistura linguagens artísticas (o espetáculo usa elementos do teatro, dança, poesia hip hop e áudio visual), utiliza uma narrativa fragmentada e movimenta o público pelo espaço de forma interessante.

O público entra num enorme depósito e encontra ações isoladas acontecendo simultaneamente, podendo caminhar livremente pelo espaço e escolher o que deseja ver. Aos poucos ações simples se transformam em pequenos solos onde personagens perturbados falam de morte, corpo, abandono e saudade. O público é então literalmente varrido ao meio e a ação toma centro num amplo corredor que logo depois é transformado num enorme campo de futebol.

Assista ao trailer de 'Turfed':

Vale ressaltar a cena onde um menino chuta várias bolas ao gol, uma a uma em ritmo crescente batendo fortemente contra a parede enquanto uma menina canta dentro de uma banheira. Uma ação clara que retrata com simplicidade e poesia o isolamento e a raiva desses jovens. Talvez o maior pecado do espetáculo seja justamente o uso e a troca constante de muitos elementos diferentes.

É no campo de futebol onde as camisas são distribuídas, onde os jovens ganham nome próprio e passam a pertencer a um time, é no campo de futebol que a gente percebe o poder de um trabalho em equipe e a vontade de vencer. Rocha sabe o que deseja falar, mas o que lhe instiga como artista são as múltiplas possibilidades de como a plateia irá receber e entender a sua história. Eu também posso falar sobre 'Turfed', mas a experiência desse espetáculo tem que ser ao vivo e é de cada um.

TURFED acontece em Londres só até o dia 21 de junho, portanto, é bom correr. Para conferir a programação completa dos eventos e espetáculos em cartaz, clique aqui.


*Thais Mennsitieri é atriz, performer e co-fundadora da CACTUS Performance.Art.Collective, além de assinar a coluna de teatro, dança e performance da Eleven Culture.