Música

Carioca Leo Cavalcanti lança novo disco e clipe gravado em Berlim; assista

O cantor e compositor carioca Leo Cavalcanti lançou o primeiro registro visual do disco Despertador, que também acaba de chegar no mercado. Dirigido por Flora Lahuerta e Theo Solnik o vídeo é do single "Get a Heart". A música é a única do disco com letra em inglês.

"O clipe de "Get a Heart" foi gravado numa das cidades mais incríveis que já fui na vida: Berlim. Enquanto estava fazendo uma residência artística de três meses na Alemanha (numa vila próximo a Munique), em 2013, com um grupo de artistas brasileiros, o Coletivo + BR13", conta Leo.

A ideia da equipe de produção foi buscar simplicidade conceitual para clipe, priorizando algo espontâneo e cru. Berlim foi perfeita para a locação, pois apesar de sua história de repressão e segregação, hoje é uma das cidades com mais liberdade de expressão do mundo. O próprio muro de Berlim foi pano de fundo para uma música que tem frases como "Break all your walls inside" (algo como "derrube seus muros internos").

O show de lançamento de Despertador em São Paulo aconteceu dia 19, na Choperia do SESC Pompéia. A venda do CD (físico) foi iniciada pelo site do cantor e em breve também estará disponível na Livraria Cultura.

Assista "Get a Heart":

"A burrice e a lerdeza ganharam essa batalha". Neta de Caymmi critica ausência de celebrações nos 100 anos do avô


Dorival Caymmi, o poeta do mar, faria 100 anos dia 30 de abril

Em 30 de abril de 1914 nascia o menino Dorival Caymmi, que, ao lado de Jorge Amado, viria a ser um dos maiores representantes das imagens que hoje o mundo conhece da Bahia. O cantor, compositor, violonista, pintor e ator, cantou o amor ao mar e à sua terra natal como ninguém.

Ao versar sobre os costumes do povo da Bahia, ajudou a impulsionar a carreira internacional da 'pequena notável' Carmem Miranda, com "O que é que a Baiana Tem", a partir do filme Banana da Terra, de 1938.

Passado um século de histórias praieiras, samba, amor e saudade, parcerias de sucesso com mestres como Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Jorge Amado, e após imortalizar clássicos da MPB, a família Caymmi - incluindo a sua neta, a cantora Alice Caymmi, filha de Danilo Caymmi - vem tentando, em shows celebrativos, manter a memória viva deste que é um dos maiores poetas da música popular brasileira.


Alice Caymmi ao lado do pai Danilo Caymmi

Descaso
Em entrevista à Eleven Culture, Alice fala da relação com o avô e desabafa ao denunciar o descaso com a memória do artista. Ela reclama da falta de iniciativas educativas e culturais em torno do centenário do compositor, em especial na Bahia, onde, de acordo com Alice, até agora parece não haver nenhuma comemoração oficial em homenagem ao centenário do autor de "Saudade da Bahia".

A jovem artista vem, desde o início desse ano, apresentando pelo país o show "Dorivália", um dos únicos projetos celebrativos aos 100 anos de Caymmi, e que deve ser apresentando em Paris (ainda sem data confirmada). A cantora também vem mostrando seu canto e voz de timbre grave em disco autoral homônimo, com regravação de Bjork e homenagem a Caymmi. 

"Meu avô era um senhor de presença imponente e sagrada.
Contava histórias e era muito doce"

Dorival morreu em 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, após uma luta de 9 anos contra o câncer. Conhecido pela produção "artesanal" de suas músicas, entre as pouco mais de 70 que compôs, Caymmi emplacou sucessos imortais como "Saudade da Bahia", "Samba da minha Terra", "Doralice", "Marina", "Modinha para Gabriela", "Maracangalha", "Saudade de Itapuã", "O Dengo que a Nega Tem", "Rosa Morena".

Ouça íntegra do primeiro disco de Caymmi, Canções Praieiras (1954): 

Confira a entrevista com Alice Caymmi:

Lívia Rangel - Como era a sua relação com Dorival Caymmi. Que tipo de avô ele era?
Alice Caymmi - Ele era um senhor de presença imponente e sagrada. Contava histórias e era muito doce, gostava muito de crianças e eu gostava de fazer carinho na cabeça branca dele.

Lívia - Caymmi versou a Bahia e as magias do mar como ninguém. Mas recentemente, você deu uma declaração em que se queixava da suposta falta de interesse e de iniciativas culturais na terra natal do seu avô, na iminência do seu centenário. A situação continua a mesma?
Alice - Ainda. Infelizmente a burrice e a lerdeza ganharam essa batalha.

Lívia - Durante esse Carnaval você encabeçou uma homenagem a Caymmi com o show Dorivália, em que mistura Dorival Caymmi, rock´n´roll, axé e tropicália. Fala um pouco desse projeto.
Alice - Esse show me trouxe muito retorno positivo da crítica e do público e a repercussão tem sido positiva. Todos os shows até hoje foram grandes experiências prazerosas e ricas.

Lívia - A canção "O que é que a baiana tem?" de Caymmi foi a responsável pelo sucesso e projeção internacional de Carmem Miranda em Hollywood. Existe alguma ação prevista para o mercado exterior, dentro das comemorações dos 100 anos de Caymmi? 
Alice - Sei apenas do "Dorivália", que provavelmente vai a Paris.

Lívia- "O Dorival é um gênio. Se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi", disse uma vez Tom Jobim. Você acha que o Brasil dá o devido reconhecimento e preserva a memória da obra de Caymmi?
Alice - Não. Nunca deu. E também acho que não vai ser agora. E se não é agora imagina daqui pra frente.

Ouça a faixa "Arco da Aliança" do disco de estreia de Alice Caymmi:


Lívia - Quais ações celebrativas estão previstas para esse ano?
Alice - Não tomei conhecimento de tudo, mas sei que os irmãos Nana, Dori e Danilo fazem um show lindo!

Dia 30 de abril, aniversário de 100 anos de Caymmi, é dia de reforçar a memória viva da cultura brasileira e espalhar, em forma de verso e prosa, a importância desse mestre do cancioneiro popular brasileiro. A ElevenCulture.com está pedindo para os seus leitores que enviem para o e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. vídeos, textos, fotos (pode ser uma declamação em vídeo, um trecho de música tocada no violão, uma ilustração de sua autoria etc ) para o especial #100anosdeCaymmi. Participe e ajude a Eleven a difundir essa campanha. 

Cobertura: veja como foi o show de Lira e Scambo no Centro Histórico de Salvador

*Cobertura especial por Larissa Uerba. 

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Ídolo de uma geração nos anos 00, Lirinha apresentou canções do seu trabalho solo
e relembrou sucessos do Cordel do Fogo Encantado (Foto: José de Holanda)

Noite de sexta-feira em Salvador e dentre as opções de programações culturais na cidade estava o evento que reuniria a banda Scambo (BA) e o cantor e poeta Lira (PE) na Praça Tereza Batista - Pelourinho. Com horário de início previsto para às 21h e com poucos minutos de atraso, a primeira atração da noite foi inesperadamente o músico Lira (na divulgação oficial a banda de abertura seria a Scambo).

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Após quatro anos de sua saída do Cordel do Fogo Encantado e de quase três anos do lançamento de um álbum solo, Lirinha ou Lira ainda surpreende pelo novo tom de sua carreira musical. A figura performática e poética ainda é a mesma, mas suas composições atuais oferecem um outro tipo de percepção ao público. Tanto é que o cantor foi maestro, durante toda a sua apresentação, de olhares atentos e curiosos da plateia.

Diferente de seu trabalho (mais percussivo) no Cordel, em carreira solo Lira traz canções mais eletrônicas permeadas por distorções

O álbum homônimo ao pernambucano, diferente de seu trabalho no Cordel, traz canções mais eletrônicas permeadas por distorções, ao mesmo tempo mais harmônicas e pessoais, com menos percussão e mais cantadas, a exemplo de “Ah se não fosse o amor”,“Sidarta”, “Ela vai dançar” e a potente, “Eletrônica Viva”. Talvez uma boa definição estaria resumida em uma das falas do cantor durante o show: “é a Psicodelia Sertaneja”.

Psicodelia Sertaneja
Lira esteve acompanhado de um talentoso time, composto pelos músicos Igor Medeiros (sintetizadores), Astronauta Pinguim (piano/órgão), Neílton Carvalho (guitarra) e do baiano Angelo Medrado (bateria), que juntos ao conceito estético de som e luz trouxeram ainda mais personalidade às canções. No repertório além das músicas novas, o músico fez o público relembrar em uníssono as letras das inesquecíveis
Os óim do meu amor, “A Matadeira”, “Morte e Vida Stanley” e a música-poema “Dos três mal amados” (de João Cabral de Melo Neto), todas de sua época à frente do Cordel.

Foram sessenta minutos cravados de apresentação, com uma música de bis, um público extremamente concentrado, um som impecável, mas mantendo uma temperatura morna que seguiu por toda a noite, quem sabe por esse ser um dos últimos shows da turnê do CD e pelo público parecer ainda pouco íntimo com o novo trabalho do cantor.

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Banda Scambo vem arrastando uma plateia sempre fiél
por onde passa na Bahia Foto: Fabrício Carvalho

Debutando em casa
Em seguida, a Scambo subiu ao palco já com a Praça Tereza Batista completamente lotada e mostrou o porquê de ter um público tão fiel em mais de 15 anos de banda. Dentre as canções escolhidas, músicas do último álbum FLARE e as que marcaram diferentes épocas do grupo: “Roda Gigante”, Sua Mulher”, “Ocê e eu”, “A Carne dos Deuses” e a atual “Carnaval”.

“Noite especial… três anos sem tocar no Pelourinho, e (hoje) com essa figura especial (Lirinha). Isso não é mais música, é cinema”. Pedro Pondé (Scambo)

O vocalista Pedro Pondé também fez questão de registrar a volta da sua banda ao bairro: “Noite especial… três anos sem apresentar no Pelourinho, e com essa figura especial (Lirinha). Isso não é mais música, é cinema”.

O público, como já é de praxe nos shows da Scambo, se tornou elemento complementar cantando todo o repertório e elevando a energia do lugar ao nível máximo, com direito até a clássica roda de pogo. A banda encerrou a noite por volta das 00h, sem participação do cantor Lirinha (como alguns esperavam), com a música “Carcará” e já sem direito a bis por conta das normas de horário do local.

Ao final, Salvador é que ganhou com a experiência da união de dois shows sólidos, apesar de distintos, mas que coincidentemente tem em sua formações frontmans que vão além da música  e trazem também para o palco o teatro e a poesia.

Veja a versão da música "Lamento Sertanejo" que emocionou Dominguinhos

No episódio dessa semana da websérie Dominguinhos +, que vem sendo apresentada no Facebook, os músicos Hamilton de Holanda, a cantora de Cabo Verde Mayra Andrade e Yamandu Costa se juntam em uma versão emocionante de Lamento Sertanejo.

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A equipe de filmagem registrou a reação do saudoso cantor, sanfoneiro e compositor Dominguinhos, com a reinterpretação de um dos seus maiores sucessos, composta com o parceiro Gilberto Gil. Confira!


"Eu amo o Brasil". Estrela da música cabo-verdiana, Mayra Andrade fala sobre carreira, novo álbum e Brasil


Mayra Andrade no Ronnie Scott´s, em Londres. (Foto: Olivier Hoffschir)

A ElevenCulture, em nova parceira com a JungleDrums (leia a versão em inglês, aqui), apresenta mais uma entrevista exclusiva para você. Desta vez, batemos um papo com uma das maiores estrelas da música cabo-verdiana, a cantora Mayra Andrade que está lançando novo álbum. No dia 10 de março, conferimos a primeira apresentação da turnê britânica da cantora, no lendário clube de jazz Ronnie Scott´s, no Soho, em Londres (foto acima).


Mayra apresentou o show da turnê mundial de lançamento do álbum Lovely Difficult, no qual arrisca sair um pouco da world music e experimenta uma linguagem mais pop, cantando algumas faixas em inglês, mas sem perder o link com as suas raízes culturais. Durante o show ela se declarou aos fãs brasileiros: “Eu amo o Brasil, vocês sabem disso, né?

Na entrevista que você confere logo abaixo, a musa de Cabo Verde, nascida em Cuba e radicada em Paris, abre o jogo sobre as mudanças artísticas em sua carreira, seus quatro discos, a relação com o Brasil, e muito mais. Confira! 

ENTREVISTA COM MAYRA ANDRADE:

Lívia Rangel - Representar Cabo Verde fez de você uma artista universal. Você já lançou dois álbuns de World Music, um álbum de jazz e Lovely Difficult, que é mais pop e moderno. Conte-nos um pouco sobre esses diferentes momentos da sua carreira.

Mayra Andrade - Cada um dos meus álbuns são o reflexo de um momento específico da minha vida, de quando eu estava gravando o respectivo álbum. Em primeiro lugar, foi muito importante que eu tenha me estabelecido na cena musical como uma cabo-verdiana. Eu vejo minha nacionalidade e cultura como minha singularidade e força. No entanto, como a minha carreira tem progredido, eu sempre adiciono minhas próprias influências para a minha música, baseado nas experiências adquiridas nas viagens que fiz ao longo da vida.

Os dois primeiros álbuns de estúdio são mais tradicionais, o terceiro é uma gravação ao vivo, feito com uma linguagem mais jazzy, na Maison de la Radio em Paris. Com este novo trabalho, eu queria ir além da minha formação musical tradicional, eu queria dar um passo em direção a arranjos mais contemporâneos e algo mais pop com base em coisas que eu gostaria de explorar. Para mim, era hora de dar vida a todos os encontros artísticos que eu experienciei durante esses últimos 11 anos em Paris.

Assista ao clipe da faixa "We used to call it love", single do CD Lovely Difficult:

"Eu vejo minha nacionalidade e cultura como minha singularidade e força"

L.R. - Cantar em inglês permite que você atinja o mercado mundial da música pop, mas você também gravou em português e em francês . Como você escolhe as músicas em seus álbuns?

M.A. - Nesta gravação, eu queria deixar as questões da língua de lado e concentrar mais na linguagem da música em si. Eu queria escrever uma música, independente de saber se é em crioulo cabo-verdiano ou em Português. Todos os artistas que participaram do disco tem diferentes backgrounds e estilos. Eu sinto que isto é evidente por todo o disco e há um elo entre a minha voz, as composições, os arranjos e todo o som do álbum. Um desafio que Mike Pelanconi (Prince Fatty ) e eu tivemos que dominar juntos!

L.R. - Como foi a escolha de repertório das músicas de seus quatro álbuns para a turnê de "Lovely Difficult"? Qual música os fãs pedem mais?

M.A. - Durante a turnê, tocamos principalmente as músicas do álbum mais recente, e algumas do "NAVEGA", meu primeiro álbum. Algumas delas (Lua, Tunuka, Comme s’il en pleuvait, Dimokransa) tem sido importantes na minha carreira, então eu sempre gosto de cantá-las, mesmo que os arranjos tenham mudado completamente.

Relembre a participação de Mayra Andrade no Jools Holland, cantando "Mana":


Victor Fraga - Você tem sido muitas vezes comparada a Cesária Évora, que faleceu há dois anos. Como você se sente sobre isso?

M.A. - Cesaria e eu certamente temos em comum o fato de que somos duas mulheres  completamente apaixonadas por Cabo Verde e que ambas temos uma voz que nos permite viajar pelo mundo, deixando que as pessoas descubram a nossa música. É absolutamente maravilhoso! Fora isso, tivemos caminhos muito diferentes na vida, que eu sinto que está refletido em nossa música. Nós nunca conversamos muito sobre música, eu tinha um enorme carinho por ela. A primeira vez em que a conheci eu tinha 12 anos, eu trouxe-lhe flores no palco e uma vez em que estávamos nos bastidores, eu me apresentei a ela como cantora. Ela me deu um conselho importante, dizendo-me para nunca esquecer que o público é quem decide se você deve continuar ou não. Cesaria me ofereceu um dos buquês. Foi a primeira vez que alguém me ofereceu flores.

"Eu tenho um público extremamente entusiástico e receptivo no Brasil"

V.F. - O gênero "Morna" de Cabo Verde soa surpreendentemente brasileiro, enquanto que o crioulo cabo-verdiano é dificilmente inteligível para os brasileiros. Como você se sente em relação aos brasileiros, como algo próximo ou como muito estrangeiro?

M.A. - Eu tenho um público extremamente entusiástico e receptivo no Brasil! As origens que nós temos em comum (África e Portugal ) ajuda os brasileiros a reconhecerem-se dentro da minha música e, ao mesmo intriga-os o fato de não entenderem o nosso crioulo e de que existem diferenças rítmicas e intenções. Os brasileiros e os cabo-verdianos têm muitas coisas em comum, mas também muitas diferenças que nos fazem distintos. No caso da música Cabo-verdiana e da música brasileira é muito interessante observar as diferenças que as tornam uma riqueza.

Veja vídeo de Mayra Andrade com Martinália e Carlinhos Brown cantando "Tchapu na Bandera":

V.F. - E a sua proximidade com Portugal? O Fado desempenha um papel em sua música?

M.A. - Fado não tem influenciado particularmente a minha música, mas enquanto eu crescia e meus avós (que eram Portugueses) envelheciam, eu aprendi a amar essa música.

Traduzido para português por CH Straatmann